BLOG CARLOS RIBEIRO

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domingo, 1 de julho de 2012

10 anos do penta: A bronca que levou o Brasil ao título


Felipão teve que dar dura em Ronaldo, para que ele retornasse para o segundo tempo da semifinal contra a Turquia

Rivaldo e Ronaldo se abraçam na comemoração do penta
RIO — Semifinal da Copa de 2002. Brasil e Turquia se enfrentam no estádio de Saitama, no Japão, e, apesar do amplo domínio, a seleção não consegue furar a retranca armada pelos turcos. Artilheiro do time com cinco gols em cinco jogos, Ronaldo, que passara os dias que antecederam a partida fazendo tratamento na coxa esquerda, movimenta-se pouco e mal toca na bola. O primeiro tempo termina 0 a 0.

Desanimado, inseguro, Ronaldo entra no vestiário, senta-se numa cadeira e diz que não está se sentindo bem, reclama de dores na coxa esquerda. Insinua que talvez seja melhor ser substituído. As lamentações param por aí.

— Eu, o Felipão, o Paulo Paixão (preparador físico) tivemos que ser um pouco mais duros com o Ronaldo. Lembro-me de o Felipão dizer, com veemência, que não tínhamos chegado até a semifinal para voltar à Coreia, onde seria disputado o terceiro lugar. Falou para ele parar de reclamar e voltar para o campo, que o jogo valia vaga na final da Copa — recorda o médico da seleção, José Luiz Runco, dez anos após a conquista do penta.

Foi o que aconteceu. Logo aos quatro minutos da etapa final, ele fez grande jogada, e, de bico, pôs o Brasil na final, contra a seleção da Alemanha.

— Não demorou muito e vejo o Felipão aos berros mandando o Paixão preparar o Luizão, pois iria tirar o Ronaldo. Estava com medo de ele sentir alguma coisa que o tirasse da decisão — conta o médico, que tem quatro Copas no currículo, sendo três pelo Brasil (2002, 2006, 2010) e uma pelo Iraque (1986).

Da desconfiança ao título

Mas não foi tão simples assim Ronaldo chegar à semifinal. Até o início da Copa, a participação do atacante, assim com a de Rivaldo — para muitos o melhor jogador do Mundial —, esteve em dúvida. Os dois disputaram a Copa bancados pelo departamento médico.

Em 6 de fevereiro de 2002, o Brasil enfrentou a Arábia Saudita, em Riad. Venceu por 1 a 0, gol de Djalminha. Após o jogo, Felipão soube que Ronaldo, que vinha tendo problemas musculares em série na Itália, pretendia ir ao Rio de Janeiro. O técnico quis saber se o artilheiro iria se tratar ou aproveitar o carnaval, que começava três dias depois.

Desconfiado, Felipão pediu que Runco tivesse uma conversa franca com Ronaldo. Ela aconteceu na sexta-feira, no Rio, antes do carnaval. Participaram do encontro, além do médico e do jogador, o preparador físico do Internazionale de Milão, o fisiologista Paulo Figueiredo, Xico Gonzalez (preparador físico), o fisioterapeuta Nilton Petroni, o Filé, e a nutricionista Sílvia Ferreira.

— A conversa durou quatro horas. Traçamos um planejamento e, durante quatro semanas, Ronaldo seguiu tudo à risca. No fim de março (dia 27), a seleção enfrentou a Iugoslávia, no Ceará. O Ronaldo jogou 45 minutos e, dentro do possível, foi bem. Depois do jogo, avalizamos sua convocação. Felipão nada contestou — recorda o médico.

Ronaldo voltou para o Internazionale, mas quase não jogou, pois tinha problemas com o técnico Hector Cúper. Chegou a Ulsan, na Coreia do Sul, base do Brasil na primeira fase da Copa, como um ponto de interrogação. Ele tivera atuação discretíssima no amistoso contra a seleção da Catalunha, em Barcelona, onde a seleção inciou a reta final da preparação para o Mundial.

Na Espanha, surgiu novo problema. Os médicos do Barcelona deram entrevistas dizendo que Rivaldo tinha um problema sério no joelho esquerdo e teria de ser operado. Isso significava que não disputaria a Copa. Runco fez pé firme e disse a Felipão que podia contar com Rivaldo:

— Fizemos um exame nele e vimos que não era preciso operar. Teria que descansar um pouco e depois fazer reforço muscular. Ele não enfrentou a Catalunha e jogou meio tempo na Malásia. Depois, seguiu sem problemas.

Rivaldo disputou os sete jogos da seleção. Fez cinco gols e foi decisivo em todos eles.

— Joguei 14 jogos de Copa com a camisa 10 da seleção. Tenho certeza de que, no futuro, vão lembrar de mim como o Rivaldo campeão — afirmou o craque após a Copa.

Logo após o apito final do árbitro na decisão com a Alemanha, Rivaldo procurou Runco. Queria lhe agradecer.

— Ele me deu a camisa da final. Ela está pendurada num quadro lá no meu consultório — conta o médico.

Ronaldo também jogou as sete partidas. Fez oito gols, mas nem por isso a trajetória do artilheiro foi tranquila durante a Copa. Contra a Inglaterra (Brasil 2 a 1), nas quartas de final, em Shizuoka (Japão), ele sentiu dores no músculo adutor da perna esquerda. Foi substituído e deixou o campo arrasado. As coisas iam tão bem e, logo na hora decisiva, voltava a ter problemas.

Felipão ficou preocupado. Runco também. Fizeram um exame e chegaram à conclusão de que eram dores musculares.

— Nem fizemos ressonância magnética para não botar minhocas na cabeça do Ronaldo.

Na véspera do jogo com a Turquia, Felipão procurou Runco na concentração. Afirmou que estava muito reocupado com Ronaldo, que não podia utilizá-lo numa semifinal de Copa do Mundo se não estivesse realmente bem.

O médico disse que a situação estava sob controle e que Ronaldo, apesar de não treinar desde o jogo com a Inglaterra, jogaria a semifinal e a final. Deu tudo certo. Na final, Ronaldo brilhou intensamente e fez os dois gols da vitória (2 a 0) sobre a Alemanha.

— Não que estivesse em dívida comigo ou com o povo, mas havia um peso na consciência — disse Ronaldo após a final, em relação à decisão contra a França, quatro anos antes.

Na véspera da final, Felipão reuniu a delegação. Agradeceu a um por um pela dedicação e pelo comprometimento. Disse que o objetivo já tinha sido alcançado. Fez um agradecimento especial ao departamento médico.

— Foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira. Eu nem conhecia o Felipão direito antes da Copa — lembra o médico, há 35 anos no futebol.

Fonte: Glogo Esportes

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