BLOG CARLOS RIBEIRO

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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia do Jongo dá início a uma série de ações que revitalizam o gênero

Data é celebrada nesta quinta-feira e terá show dos jongueiros da Serrinha na Gamboa

Roda de Jongo, em Madureira


RIO - Se não fosse o Mestre Darcy o jongo tinha morrido. A frase não guarda metáfora, e as vozes que a repetem são tantas que não seria justo estabelecer quem a diz. Poderia ser atribuída tanto a Tia Maria, liderança mais antiga do Jongo da Serrinha, com seus 91 anos, como a qualquer um dos jovens integrantes que entram e saem pela sede do grupo, instalada numa das ladeiras de acesso ao morro da Serrinha, em Vaz Lobo.— Tudo o que a gente tem é por causa dele — diz Lazir Sinval, coordenadora artística da ONG Jongo da Serrinha e cantora do grupo. — O jongo é baseado na tradição oral, se mantém vivo na memória dos mais velhos, que repassam os cânticos e ensinamentos aos mais novos. Então, não fosse por ele, muita coisa teria se perdido.

Zeca, Mautner, Kassin, Digital Dubs

Se estivesse vivo, Darcy do Jongo completaria 80 anos em 2012 e veria nesta quinta-feira, dia 26 de julho, a celebração do Dia Estadual do Jongo, instituído no ano passado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), atendendo a um pedido do Jongo da Serrinha. Reconhecido em 2005 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan, o jongo terá sua tradição de canto, dança e religiosidade exaltada e amparada por uma série de atividades até o fim do ano, como shows, lançamento de discos e também o início da construção de uma nova sede para o grupo, que já conta com projeto arquitetônico e aval da prefeitura.

— Estamos desapropriando um imóvel e iremos fazer a obra — diz o prefeito Eduardo Paes, referindo-se a um prédio de 1.600 metros quadrados no pé da Serrinha.

No espaço, além de oficinas de construção de instrumentos, percussão, aulas de teatro, cultura popular, canto e dança, haverá um terreiro para apresentações e também salas para os coordenadores.

— A construção da sede é urgente para que a gente possa dar continuidade a nossos projetos culturais e de educação — frisa a coordenadora e produtora Adriana Penha.

As comemorações do Dia do Jongo começam hoje à noite, às 21h, com show especial dos jongueiros da Serrinha no Trapiche Gamboa, ao lado do grupo Razões Africanas. No repertório, as cantoras e os instrumentistas do grupo entoarão pontos ancestrais e novidades criadas pelos próprios integrantes. Algumas das faixas estarão no segundo CD do grupo, "Vida ao jongo!", a ser lançado em novembro. Já no sábado, às 14h, será realizado um seminário no Palácio Capanema, reunindo dez comunidades jongueiras de diversos pontos do estado. Após a cerimônia, um cortejo vai partir do palácio em direção aos Arcos da Lapa, onde, às 18h, se inicia uma grande roda de jongo.

— O seminário serve para estreitar a relação entre as comunidades, e também entre elas e representantes do poder público — diz Adriana Penha. — O jongo é um bem imaterial, então acho que o objetivo de todos é salvaguardar os jongueiros, ou seja, cobrar políticas que possam garantir a continuidade do trabalho, da transmissão dessa cultura a partir da música. Darcy nos fez entender a importância de cultivar a tradição, as memórias, e se não fosse ele e Tia Maria muita coisa teria ido embora sem registro.

Originário da região do Congo-Angola, na África Meridional, o jongo chegou ao Brasil com os negros bantos que se estabeleceram nas fazendas de café do Vale do Paraíba, no Sudeste. Foi entre o fim do ciclo do café e a abolição da escravidão que um grande contingente de negros se instalou no Centro do Rio e, no começo do século XX, em morros como Mangueira, Salgueiro e Serrinha. Foi lá que se estabeleceu o maior reduto de jongueiros, entre eles a mãe de santo Vovó Maria Joana Rezadeira, mãe de Darcy. Entre os toques de tambor, aprendidos com os ogãs dos terreiros, Darcy se tornou um percussionista inovador, responsável tanto por incluir o agogô na bateria do Império Serrano quanto por trazer às rodas instrumentos de harmonia e sopro. Herança que o produtor Paulão Sete Cordas leva adiante no álbum "Vida ao jongo!".

— Usamos violão, cavaquinho e flauta, mas toda a base está na percussão, nos toques, que foram gravados pelo pessoal da Serrinha — diz Paulão. — Darcy criou uma das maiores escolas de percussionistas do país, e neste disco o jongo é registrado numa qualidade de produção que ainda não havia recebido. Precisamos fazer com que essas músicas cheguem às pessoas, que esse trabalho dê mais visibilidade à riqueza do jongo.

No álbum, nomes fortes como Zeca Pagodinho, Jorge Mautner, Sandra de Sá e Zé Luis do Império participam ao lado do coro da Serrinha, cantando pontos antigos e composições de Paulo César Pinheiro, Wilson Moreira e Ney Lopes, todas entremeadas por vinhetas entoadas por Tia Maria.

— Ela é uma griot ( contadora de histórias), tem um caderno com mais de 300 pontos. Tivemos que escolher a dedo — diz Lazir. — Eles falam do cotidiano do negro na senzala, dos elementos da natureza, dos tambores, de fé, como nos pontos de louvação e despedida, que abrem o disco e nossos shows.

A ligação entre o jongo e os cultos afro — umbanda e candomblé — marca não só o ritmo, considerado o pai do samba, mas o viés religioso do gênero. Não à toa o Dia do Jongo é celebrado no dia de Nossa Senhora de Sant’Ana, sincretizada em Nanã, orixá do candomblé.

— Há gente que vê o jongo apenas como dança, mas eu enxergo nele uma herança espiritual, uma dança das almas, em que pretos velhos e antigos orixás nos repassam mensagens, entre elas o respeito aos mais velhos — diz Lazir.

Com o pé na tradição, mas de olho no futuro, os produtores Dyonne Boy e Ricardo Cotrim idealizaram um álbum conceitual. "Estúdio de criação", que será lançado em setembro, em parceria com o Sesc, reúne oito peças musicais criadas por diferentes produtores da cena contemporânea carioca, como Kassin, Pedro Bernardes, Duplex, Bolimbolacho, João Hermeto, Digital Dubs, Vânia Dantas Leite e o DJ Michel, do viaduto de Madureira.

— É um projeto que nasceu do Jongo da Serrinha, mas que propõe novas leituras a partir de meios eletrônicos — diz Cotrim. — São peças inspiradas no jongo, mas que atravessam o funk, o dub, o reggae, a música eletroacústica. O que nos interessa é estabelecer canais entre o jongo e outros núcleos de produção musical da cidade. Ampliar a rede de diálogo do jongo para além do samba. Fazer com que ele circule em criações novas, originais. O barato é a diferença e a diversidade de perspectivas de cada um desses criadores sobre o jongo.

‘Um universo novo de criação’

Oportunidade que o produtor Pedro Bernardes abraçou para traçar uma rota evolutiva de batuques, que parte dos tambores do jongo, cruza o maculelê e aporta eletronicamente nos graves sintéticos do funk, servindo também de guia para a métrica de uma extensa letra que desfere golpes "contra o sistema" em versos que se unem "em resposta a essa engrenagem", como diz o músico.

— O que fiz é uma homenagem ao jongo, ao trabalho do Darcy, que conheci pessoalmente. Na Serrinha não tem UPP, a coisa ainda pega fogo, então criei uma música que é uma espécie de oração — conta Pedro. — O funk sofreu uma transformação com o tamborzão, que é primo do maculelê, que, por sua vez, é primo do jongo. Nunca tinha trabalhado com o jongo, que é um ritmo popular mas que não é difundido popularmente. Então, não sou eu apenas que faço algo diferente com o jongo. É o jongo que me dá a oportunidade de descobrir um universo novo de criação.




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