BLOG CARLOS RIBEIRO

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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Flupp leva escritores consagrados a comunidades pacificadas do Rio


Objetivo do evento, semelhante à Flip, é fazer ponte de vários temas com realidade das favelas
Dulce Maria Cardoso, Angela Dutra de Menezes e Ana Maria Machado: mesa no Cantagalo




RIO - Em julho de 2010, Julio Ludemir estava na pior. O que daí resultou, dois anos depois, é que centenas de cariocas das periferias acabam de conversar com escritores como o inglês Hanif Kureishi, a cubana Zoé Valdés e o indiano Suketu Mehta, além de vários autores brasileiros e do editor da mais célebre revista literária do mundo, a "Granta".

Tudo culminou, na última quarta-feira, num dia tão cheio no Morro do Cantagalo que mal se deu pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, no palco. E a história ainda só está a aquecer para novembro, quando estreia a primeira Flupp: Festa Literária das UPPs.

Então, o que é que em 2010 aconteceu a Julio Ludemir, jornalista e escritor, pernambucano e carioca, sobretudo flamenguista?

— Fiz 50 anos. E um livro meu que conta a história do crime no Complexo do Alemão encalhou na editora: iam queimá-lo. Foi um golpe duro. Recolhi mil exemplares e saí quase como um camelô.

Julio era fã da Flip, daqueles de assistir de fora, do telão, sempre que não tinha convite.

— Minha primeira Flip foi uma experiência quase extraterrestre, e passei a ir sempre.

Agarrou-se ao livro encalhado, foi para Paraty vender.

— E, quando abordava as pessoas, era tão maltratado: "Não incomode os clientes." Quer dizer: "Não interrompa a minha conversa." Eu sei como o chão é duro, sei quantas vezes caí, e foi nessa Flip que me arranhei muito, no meio da crise dos 50, a lidar com o fracasso do livro mais bem urdido que já fiz, as pessoas que conheço quase me evitando. Uma amiga me chamou delicadamente num canto e disse: "Você está pagando mico."

E no meio de tudo veio esse fado de transformar sua dor. Veio assim, ideia, nome, local: Festa Literária das UPPs, Flupp. Ao voltar, falou da ideia ao amigo Ecio Salles, com quem trabalhava na secretaria de Cultura de Nova Iguaçu.

— Achei fantástico — lembra Ecio. — Mas para algo dessa magnitude precisávamos de mais gente, pessoas de referência que pudessem ajudar.

Foram buscar a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda, o antropólogo Luiz Eduardo Soares e, para curador, o velho camarada de Julio no "Jornal do Brasil", Toni Marques, hoje editor de texto no "Fantástico", além de escritor.

— Eles me fizeram um briefing da ideia, que eu transformei em temas — conta Toni.

Ponte com a favela

O British Council leu a notícia, quis associar-se, convidou Toni para um festival literário em Norwich, na Inglaterra, com gente de todo o mundo. Ele voltou de lá com uma lista de autores e um novo conceito:

— Integrar performances, shows, entrevistas abertas. A Flupp só vai funcionar se os temas tiverem alguma ponte com a realidade das favelas. O objetivo é pegar quem já tem uma vocação, mostrar-lhe que pode ser uma voz vinda desse mundo, o que não quer dizer que tenha de escrever sobre isso, dar-lhe acesso a escritores internacionais.

Aconteceu já esta semana, logo depois da Flip. Várias estrelas de Paraty subiram os morros do Rio. Mas a Flupp estava se mexendo há meses, numa série preparatória de oficinas e palestras em 12 favelas, sempre aos sábados. Prosadores e poetas do Complexo do Alemão ou de Nova Iguaçu iam se reencontrando em comunidades onde nunca tinham entrado. Como o nome desta série era Fluppensa, passaram a ser chamados de Fluppenseiros. Textos deles foram debatidos por escritores e acadêmicos brasileiros que se dispuseram a lê-los previamente. Cada sessão fechou com um autor consagrado falando do seu percurso.

Sábado, 23 de junho: pipas cruzam o Colégio Estadual Tim Lopes, no Complexo do Alemão. O auditório vai encher para ouvir Luiz Ruffato. Antes, dois acadêmicos e um escritor comentam textos dos Fluppenseiros. É assim que, enquanto Silviano Santiago resume os princípios de Ezra Pound, cabeças de boné ou de trancinhas tomam nota de tudo.

— Muitos de vocês ainda não perceberam que cada personagem precisa ter sua própria voz — diz Silviano, seguindo para Flaubert, Eça de Queirós e Machado de Assis.

Ruffato conta como veio de Cataguases (MG), filho de analfabetos: duas horas de palestra e conversa para quase 200 pessoas, no sábado de São João.

— A literatura não serve para nada? Se estou aqui é por causa da literatura. As coisas realmente importantes vão se impregnar em vocês, virar sangue.

Sábado seguinte, 30 de junho, é a vez da Mangueira, no Centro Cultural Cartola.

— O conto, você vence por knock-out — diz Ítalo Moriconi. — Em várias narrativas de vocês falhou esse foco na narração, muitas eram crônicas.

O outro acadêmico da mesa é Cezar Migliorin, que tal como Ítalo leu 14 textos.

— O mais importante não é o texto, é estar em contato com a criação — diz, no intervalo.

A seguir, Eliane Brum emociona a plateia com relatos da sua vida de "escutadeira", da doença de Chagas na Bolívia à rotina de uma mulher com câncer:

— Escrever é sempre pouco e muito, ao mesmo tempo.

A sala aplaude-a de pé, sucedem-se perguntas como "Quais os limites do escritor ao entrar na vida dos outros?". De todas essas sessões resultará um livro com os melhores textos dos Fluppenseiros, a ser lançado na Flupp, de 8 a 11 de novembro.

O mundo nos Prazeres

Julio não deixou de ser fã da Flip por mergulhar na Flupp, e este ano lá estava em Paraty, tal como Ecio, um a mediar mesa, o outro a acertar a vinda de autores para o Rio, logo no pós-Flip. Festas parceiras, já.

Então segunda-feira, 9 de julho, o Morro dos Prazeres ficou americano, galês, cubano e paquistanês perante uma plateia com turmas de 10 a 16 anos e acabou com Fluppenseiros anotando o e-mail de Zoé Valdés. Tudo no Casarão dos Prazeres, secular chalé vermelho com vista da Baía de Guanabara.

O dia começa com apresentação da nova "Granta — Os melhores jovens escritores brasileiros".

— A escrita, para ser excitante, tem que mudar, ou vira museu — diz John Freeman, editor da revista, antes de se desdobrar no relato de seus fracassos juvenis. — Se queremos escrever, temos de falhar bastante.

A seu lado, o escritor galês Cynan Jones conta que quis ser dinossauro, ilustrador de pássaros e guitarrista de rock. No intervalo chega Zoé Valdés, mais à vontade do que em Paraty, contente por falar, no seu espanhol cubano, da família que tem no Brasil, de como sua casa era um quarto pobre, e um professor lhe deu os primeiros livros:

— Eu fazia dedicatórias para mim mesma: "Para a minha querida Zoé, do Julio Verne."

Parceiro de mesa, o gaúcho Paulo Scott fala da timidez e da raiva que determinaram sua escrita, de quem nasce com sangue negro e índio numa sociedade racista:

— Sou vira-lata como qualquer brasileiro.

Conta que aprendeu a brigar do tanto que apanhou, quando dizia que era poeta no bairro pobre onde cresceu. Nada que seja estranho a quem o ouve.

Garoto também mestiço na Londres suburbana dos anos 1960, filho de paquistanês e inglesa, hoje referência da literatura britânica, Hanif Kureishi chega de bermuda, tênis e mochila, com o filho. Enquanto a plateia não faz perguntas, o jornalista Claudiney Ferreira pergunta-lhe por essa infância periférica, que tantos aqui terão em comum.

— Amigos de infância tornaram-se skinheads, perseguiam pessoas como eu e meu pai. Assustador. Aos 14 anos comecei a escrever para saber quem era.

Rodrigo, de São Gonçalo, um dos mais ativos escribas da Flupp, pergunta se é verdade que Kureishi começou como escritor pornográfico. Ele confirma, mas o assunto se esgota depressa. Vêm questões sobre literatura e cinema, porque Kureishi também é roteirista célebre. E já está realizado?

— Vim de Paraty a pensar numa história e excitado com isso. Ainda penso: "Agora é que vai ser fantástico."

Julio, um cadeirante da Cidade de Deus, quer saber se com a internet os livros ainda podem ser eternos como "Moby Dick". Kureishi acha que sim:

— Uma boa história vai ser uma boa história para sempre.

Bruno, que cobre a sessão para o site da Flupp, diz que a literatura brasileira precisa ouvir o que se passa nas favelas.

— Mas quem está aqui tem de se aprisionar a uma escrita do real? — prossegue.

— Deve escrever sobre o que te interessa — atalha Kureishi. — O Super-Homem, Frankenstein, a tua rua ou o futuro.

Desabafo final, quando alguém lhe pede que resuma um dos seus livros:

— Esta manhã estava em Paraty com o Ian McEwan, e ele dizia: "Não só escrevemos o livro, como querem que digamos sobre o que é e o que significa?" Leia o diabo do livro.

Nomes de peso

Passa das 20h, plateia e autores misturam-se no Casarão. Vários Fluppenseiros são bloggers, performers, ativistas. Silvana, da Lapa, gostou do conselho de Kureishi para escrever sobre o que lhe interessa. Marcelle, de Nova Iguaçu, lembrou os fracassos de John. Márcio, do Vidigal, ficou pensando que quem escreve deve mostrar a cara. Felipe, do Morro da Fé, não quer se prender à realidade.

E Kureishi, já descendo a rampa com o filho, diz que nas favelas do Rio como em qualquer lugar do mundo as perguntas básicas não variam:

— Como começo? Como publico? Mostro aos amigos?

Quarta-feira, 11 de julho, o elevador do Cantagalo não para. Desfilam pelo Espaço Criança Esperança os espanhóis David Trueba e Malcolm Barral, a portuguesa Dulce Maria Cardoso, o nigeriano-americano Teju Cole, o americano fixado no Rio Douglas Mayhew, o indiano Suketu Mehta e os brasileiros Ana Maria Machado e Luiz Eduardo Soares.

Na plateia, estarão o diretor-geral da Flip, Mauro Munhoz, o curador, Miguel Conde, e a fundadora, Liz Calder. Como estarão os Fluppenseiros Rodrigo, Marcelle, Felipe, Márcio e Silvana, e Alessandra, de Japeri, que perguntará, no fim: "E como fazer literatura onde as pessoas nem têm acesso a saúde?"

Entre os debates houve batalha de rap e dança do passinho para 200 crianças com o produtor Nike, sorriso branco em cara negra, coroa de tranças.

Nove horas de ideias não cabem aqui. "Quase sempre o escritor vai estar na periferia, porque não se sente convidado para os lugares onde se decide o futuro", disse Trueba. "Ao contrário da Europa, o Brasil tem uma ideia de mundo novo, onde tudo pode ainda acontecer", disse Dulce Maria Cardoso. "Durante nove anos escrevi e guardei numa gaveta", disse Ana Maria Machado. "Esta é a quinta vez que falo no Brasil, mas é primeira em que vejo um número significativo de pessoas com a minha cor", disse Teju Cole. "Se há gente que tem medo de subir a favela, tanta gente tem medo de descer, de que a linguagem que fala não seja suficiente", disse Douglas Mayhew. "Não sei se as mudanças no Rio serão cosméticas por causa dos eventos que aí vêm, mas o mundo está olhando", disse Suketu Mehta. E Luiz Eduardo Soares leu um poema de Wislawa Szymborska, porque "poesia é esse escavar da linguagem que recusa as categorias e o preconceito e descobre o outro em si mesmo".

A noite fecha com Julio Ludemir, que diz acreditar na pacificação das favelas como acreditou na democratização do Brasil, agradecendo no palco:

— Isso aqui era absolutamente impossível. Só na cabeça de um flamenguista.

Os protestos começam logo ao lado, por Ecio, vascaíno.

Mas ninguém reclamaria do que Julio tem na cabeça como ideia-chave da Flupp:

— Todos os lugares da cidade serem de todos. A cidade é tua, cara. A cidade é nossa.

Fonte: O Globo/Cultura





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