BLOG CARLOS RIBEIRO

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domingo, 5 de agosto de 2012

Artistas ocupam a Zona Portuária do Rio em busca de espaços amplos e baratos


Ateliê de Brígida de Murtas, na Bhering, no Santo Cristo


O caso Bhering expõe a valorização na região, que é hoje alvo de remoções de famílias para viver nova urbanização

RIO — Foi tudo muito rápido: em menos de uma semana, os artistas que alugam espaços na antiga fábrica Bhering, no Santo Cristo, receberam notificação judicial para deixar o prédio, comprado por uma imobiliária; logo em seguida, no entanto, tiveram sua permanência garantida por um decreto da prefeitura.

Entre uma e outra decisão, manifestaram o medo de perder seus ateliês, ainda com preços abaixo dos altíssimos aluguéis da Zona Sul. Deixaram, assim, exposto um problema da cidade dita olímpica: ocupar a Zona Portuária.

Quando receberam a ordem de despejo, artistas como Barrão logo foram procurar espaços na região, amplos e a custos menores. O decreto de desapropriação do prédio da Bhering foi, enfim, um alívio. Mas até mesmo ele, há dois anos ocupado por mais de 50 ateliês, começa a se valorizar. O metro quadrado no edifício passou de R$ 7 em 2010 para cerca de R$ 25 atualmente.

Na vizinha Gamboa, a estilista Carolina Herszenhut alugou um espaço por pouco mais de R$ 5 o metro quadrado — deixou Ipanema depois que seu aluguel foi a R$ 4 mil (ela pagava mais de R$ 60 pelo metro quadrado). Mas afirma que não foi movida por preço. A Gamboa, diz, lembra o Meatpacking, em Nova York. Lá, a região que reunia vários açougues virou bairro cool, com grifes e restaurantes da moda.

— Acho que é um movimento que vai acontecer por aqui — aposta Carolina. — A Zona Sul virou uma bolha inalcançável e vai acabar com os pequenos negócios tão característicos da cultura carioca. Por isso precisamos trazer as pessoas para cá, ocupar a Gamboa, criar uma proposta de bairro.

Atrás da glória na Gamboa

Se concretizado o desejo da estilista, é possível que os próprios artistas sejam “expulsos” da área, com a valorização e o consequente aumento dos custos. Para o produtor musical Ricardo Imperatore, que deixou a Praça São Salvador, no Flamengo, após aumento de 400% no aluguel, a Gamboa pode voltar a ser “gloriosa”.

— É onde nasceu o samba. Quero ver e cobrar a transformação alardeada pela prefeitura — diz Imperatore.

Para o professor Orlando Santos Júnior, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano Regional (Ippur), órgão ligado à UFRJ, os artistas são “compatíveis” com o processo de revitalização da área.

— Há 500 famílias na Zona Portuária que devem ser removidas, segundo a prefeitura. Bastava a elas um decreto, como o da Bhering. O que ocorre é que os artistas se alinham ao projeto de urbanização, não significam ativo de desvalorização, como as populações locais. Pelo contrário, podem até valorizar o espaço — diz ele, que é coordenador da rede nacional Observatório das Metrópoles. — Mas pode ser que a Bhering sirva como resistência nesse projeto de gentrificação, de elitização da cidade.

Para Liana Brazil, que acaba de inaugurar na Gamboa a sede do ateliê de design, arte e tecnologia SuperUber, os artistas podem ter aqui o poder que tiveram em bairros como o Brooklyn, em Nova York, ou Kreuzberg, em Berlim, ambos valorizados e hoje tidos como espaços ecléticos e charmosos.

— É um movimento natural: os artistas vão para onde se pode criar. Mas, para valer a pena, é preciso algum início facilitador, uma faísca — diz Liana.

No Rio, a faísca pode ser a Bhering.


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