BLOG CARLOS RIBEIRO

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domingo, 12 de agosto de 2012

Combinações




Nunca misturo leite com manga. Fui criado ouvindo que a combinação fazia mal. Era crença de meu pai. Parece que um dos seus irmãos morreu ainda criança depois de ingerir os dois alimentos. Sempre estranhei a história. Afinal, quem misturaria leite e manga? Qual é a graça? A combinação só faz sentido em sorvetes. Por sinal, sempre tomei sorvete de manga. Escondido de meu pai, é claro. E não desenvolvi nenhum efeito colateral. Pelo menos, até agora.

Também tenho medo de tomar banho logo após as refeições. Não é saudável, garante outra crença familiar. Você pode estar mais sujo do que o passado do José Dirceu. É preciso esperar. Meu problema é exatamente o prazo de validade desta quarentena. Quanto tempo após o almoço eu estaria pronto para a chuveirada? E qual é a quantidade de alimento necessária para impedir o banho pós-refeição? Um prato de feijão com arroz impede na certa. Mas... e uma empadinha de frango? Tá valendo?

Não se mexe em tomada com os pés descalços. Dá choque. Ou será que o que dá choque é mexer na tomada com sapatos de sola de borracha? Na dúvida, é melhor acreditar que nada combina. Nem tomada e pé descalço, nem tomada e sola de borracha.

Leite e manga, almoço e banho, tomada e.... a gente cresce tendo que aprender tudo que não combina. Na maioria das vezes, os equívocos de combinações são menos traumáticos. Não afetam a saúde, apenas o bom gosto. Assim, é preciso evitar meia preta com sapato marrom. Ou vice-versa. Gravata listrada com camisa

xadrez. Ou vice-versa. Verde e rosa... ops, a Mangueira desmoralizou este preceito. Mas ninguém liberou ainda o verde e azul. Definitivamente, não combinam.

Saber o que não combina não significa necessariamente saber o que combina. A gente passa a vida se esquivando de combinações erradas, mas como é difícil encontrar a combinação certa. Viver pode ser um exercício de combinação. E existem alguns truques que tornam tudo mais fácil. Se você só tem sapatos marrons no

armário, não há motivo para comprar meias pretas. Ou vice-versa. Se todas as suas gravatas são listradas, não há justificativa para manter no cabide uma camisa social xadrez. A não ser que, como aconteceu com o verde e rosa da Mangueira, um dia você perceba que nenhuma combinação ou descombinação é definitiva. Eu avisei que era difícil, não avisei?

Neste domingo, teremos a cerimônia de encerramento das Olimpíadas. O leitor pode concluir que uma coluna que começa falando de combinações, faz divagações sobre a vida e chega aos Jogos de Londres só pode estar querendo dizer que o colunista não combina com Olimpíadas. Ou vice-versa. Não é isso. Acompanhar partidas de vôlei de praia (o mais monótono dos jogos olímpicos) e exibições de saltos ornamentais (a segunda competição mais monótona da temporada) foram alguns dos meus programas preferidos nos últimos 15 dias. Aprendi, na edição de 2012, que Jogos Olímpicos não são feitos só de vencedores. Muitas vezes a emoção está na derrota. No esforço de concluir uma maratona, mesmo que se chegue em último lugar. No choro do atleta que bateu na trave do pódio. Na decepção do ginasta que vê quatro anos de preparação se perderem numa queda no exercício de solo.

Mas quando você vê uma atleta ser desclassificada sem nem tentar dar o último salto. Quando esta atleta se justifica dizendo que ventava demais e ela poderia se machucar. E, por fim, a única frase que lhe vem à cabeça ao deixar o Estádio Olímpico é: “É só esporte”, aí você aprende mais uma: Fabiana Murer e Olimpíadas não combinam

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