BLOG CARLOS RIBEIRO

BLOG CARLOS RIBEIRO

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O caçula da Bienal de São Paulo


Garoto de 16 anos estreará na feira literária como autor, com livro inspirado em mitologia

Leandro Rodrigues Sales Filho, de 16 anos, e seu livro "Asgard" Foto: Eliária Andrade
Leandro Rodrigues Sales Filho, de 16 anos, e seu livro "Asgard"Eliária Andrade



SÃO PAULO - Quando os portões da 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo se abrirem no dia 16 de agosto, oito dias depois do início do evento, turmas de estudantes entrarão para conhecer centenas de obras literárias. Aluno de uma escola pública de São Paulo, Leandro Rodrigues Sales Filho, de 16 anos, também estará presente, mas não na condição de leitor. Morador da periferia da cidade, tímido e até então dedicado a escrever poesias, ele participará da feira como autor. Seu primeiro livro, “Asgard, o poder esquecido”, narra uma guerra no mundo dos deuses, inspirada na mitologia nórdica, presente na cultura dos povos escandinavos de Noruega, Alemanha e Dinamarca

O garoto levou sete meses para escrever a primeira obra, que começou como uma brincadeira de pré-adolescente. Os primeiros rascunhos foram registrados no ano passado em folhas do mesmo caderno que usava nas salas de aula. Difícil mesmo, diz ele, foi pesquisar sobre a mitologia. Com a ajuda da internet e de livros espalhados pelo quarto, Leandro, então com 15 anos, escrevia as primeiras poesias quando percebeu que poderia avançar mais.

— Fui aumentando o texto, até chegar a este trabalho. Sempre fazia anotações no caderno mesmo. Vinha algo na cabeça, eu escrevia. Nunca havia sentado para escrever direto uma obra — conta.

Quando resolveu transformar os rascunhos em livro, ele se debruçava sobre o caderno à noite, após as aulas. Só quem via os capítulos era o irmão, Gustavo, de 14 anos.

— Gosto de fantasiar. Por isso veio a ideia de escrever uma obra de ficção — afirma Leandro.

A segunda obra, continuação da ficção, já está pronta. Só falta ir para o forno — leia-se, ir para a editora. O nome sugerido pelo autor: “Asgard, a terra que chora”. E ele já pensa no terceiro, que vai encerrar a série. Depois de fechar esse ciclo, pretende se dedicar a romances e ao curso de Letras, pois já se prepara para prestar vestibular em universidades públicas. A estreia na Bienal causa uma sensação que mistura medo e ansiedade no jovem escritor:

— Dá um pouco de medo, né? Bienal é um evento maior. Mas procuro ficar tranquilo.

Os responsáveis pela edição do livro estão animados com o trabalho do garoto.

— Vimos um diferencial grande no Leandro ao lermos o livro. Lançamos o primeiro e pretendemos continuar com essa trilogia. Os resultados do livro dele já são positivos — diz Cleber Vasconcelos, responsável pelo selo Novos Talentos da Editora Novo Século.

Filho mais velho de um casal de analista de sistemas e de uma dona de casa, Leandro “nunca deu trabalho,” segundo Márcia, mãe do estudante. Quando não está escrevendo — agora ele já usa um notebook —, frequenta as atividades do grupo jovem de uma igreja evangélica. Gosta de tocar violão. A mãe se ocupa em administrar a vida de escritor do filho:

— É um privilégio para mim. A gente sempre o incentivava quando ele estava escrevendo. O Leandro tem facilidade para escrever. Às vezes, o notebook ficava no colo enquanto ele jogava videogame. Só que ele nunca mostrou para nós o que estava preparando. O crítico dele é o irmão.
Nem para a professora de Língua Portuguesa Leandro mostrava os capítulos de “Asgard”.

— O livro já chegou para mim pronto. Ele é um aluno que se desenvolve sozinho. Eu aprendi muito mais com ele do que o Leandro comigo. É um aluno nota dez — elogia a professora Lucineia Ribeiro de Moraes.

O estudante da Escola Estadual Conselheiro Crispiniano, de Guarulhos, na Grande São Paulo, onde estudam 2 mil alunos, tem “prontuário limpo”, segundo a direção. Descrito como quieto e observador, é orgulho da escola, que procura incentivar os alunos a praticar o hábito de escrever, por meio do concurso cultural “Noite de Poesia”, promovido anualmente. A professora fez apenas uma observação em relação aos dotes literários do garoto: melhorar um pouco a letra.


Fonte: Globo/Cultura

0 comentários:

Postar um comentário