BLOG CARLOS RIBEIRO

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A vida das coisas nas obras da mostra de Barrão

 

RIO - No ateliê que mantém desde os primórdios da Bhering, na Zona Portuária do Rio, Barrão guarda centenas de peças de louças. Há prateleiras dedicadas a cachorros, outras a imagens de Buda ou a objetos cor de rosa. Cachorros, budas e vasinhos vêm de feiras como a da Praça XV, da Ladra, em Lisboa, ou de Dusseldorf, na Alemanha. Estão lá, na Bhering, desde os anos 2000, quando o artista começou essa espécie de coleção que vem dando origem a muitas de suas obras.
 
Na exposição “Arrumação”, que a galeria Laura Marsiaj abre amanhã, às 19h, ele expõe sete esculturas criadas com os cacarecos de louça ora inteiros, ora quebrados e reorganizados em formas improváveis, já distantes da função de objeto decorativo que um dia tiveram. Há um gato de louça azul (coletado na Praça XV) de cujo rabo parece explodir uma forma alongada, composta de vasos e seus cacos. Trata-se de “Rastro”, obra que ele concluiu em 2013, mas que há pelo menos um ano vem sendo desenvolvida no ateliê.
 
Longo processo de criação
 
A colagem de objetos já prontos é algo recorrente na obra de Barrão. Nos anos 1980, ele lembra, comprava aspiradores de pó e até motores de geladeiras e fogões que rearranjava em obras de arte. Naquele tempo, os eletrodomésticos, e não os objetos de louça, apinhavam o ateliê.
 
— Na verdade, eu não encaro esses objetos que guardo como uma coleção, mas a maneira como trabalho passa um pouco por essa coisa de colecionar, de acumular coisas — diz o artista. — Tinha pensado, lá atrás, no final dos anos 1980, em fazer um trabalho com louça, mas era só um, com uns bichos colados e tal. Nunca fiz esse trabalho e passou. Um dia resolvi fazer. No ano 2000, fui atrás dessas coisas, fiz e achei que o resultado estava legal, gostei de como tudo se misturava. Aí fiz outro e outro...
 
Então, Barrão passou a comprar objetos de louça em feiras populares. Primeiro, ia aos locais focado: comprava apenas objetos em forma de cachorros, por exemplo. Depois, o artista diz ter percebido que a diversidade seria útil — e, assim, começou a comprar e levar de tudo um pouco para o ateliê.
 
— Esse jeito de criar um acervo para trabalhar é algo que sempre foi assim para mim. Não sei ter uma ideia e sair para comprar, produzir. Preciso ter as coisas para pensar a partir delas — explica.
 
Assim, uma série de Budas prateados que Barrão encontrou em Dusseldorf acabou agrupada a pequeninos bules brancos num objeto de parede. Uma mulher esculpida em louça azul, recostada em troncos (também azuis), forma uma composição com um cofre de moedas em forma de pênis, chuchus, um cachimbo, legumes — tudo em louça, tudo fálico, como pretendia Barrão.
 
Embora os objetos criados pelo artista carioca possam ter estética um tanto kitsch, ele diz que não é isso, “de forma alguma”, o que pretende com essas esculturas.
 
— Nem penso nisso. Talvez eu tenha um sentimento mais flexível em relação a isso. Quer dizer, eu não enquadro as peças como kitsch, de jeito nenhum. Nem gosto quando é um objeto muito característico, ou algo de muito valor ou de uma estética valiosa. Gosto de quando os objetos perdem suas características individuais e se descobrem novamente numa reunião com outra coisa.
 
O processo de criação das esculturas, ele completa, é longo. Justamente porque é preciso encontrar peças que se encaixem ou “produzir” cacos perfeitos que completem uma obra. E Barrão faz quase tudo sozinho (tem um assistente no ateliê, que o ajuda em questões técnicas e, por conviver com o artista, também dá sugestões para as criações).
 
— Não gosto muito de delegar, gosto de fazer — afirma. — Me interessa muito esse imaginário popular, que tem uns bichos, umas decorações, umas coisas que acho muito bonitas, e outras, bem loucas. Essa diversidade cria uma possibilidade de misturar tudo.

Fonte: Jornal O Globo/Cultura

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