BLOG CARLOS RIBEIRO

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sexta-feira, 14 de março de 2014

 
IMS comemora centenário de Carolina Maria de Jesus com documentário e debate...


 
Da esquerda para a direita: Carolina Maria de Jesus, Audálio Dantas e Ruth de Souza na Favela do Canindé Terceiro / Divulgação/Acervo IMS



Curta-metragem mostra rotina da catadora de papel que virou best-seller nos anos 1960, com o livro “Quarto de despejo”, diário sobre sua vida na favela



RIO - Uma catadora de papel que virou best-seller, vendendo 80 mil livros no Brasil e sendo traduzida para 15 idiomas. É essa a história da escritora Carolina Maria de Jesus, que publicou, em 1960, “Quarto de despejo — Diário de uma favelada”, relato de seu dia a dia na favela do Canindé, em São Paulo. Colocada por décadas no meio de um debate sobre se teria valor literário ou de mero documento sociológico, Carolina completaria 100 anos hoje — a data de seu nascimento é incerta, mas ela foi registrada como tendo vindo ao mundo no dia 14 de março de 1914. Para comemorar, o Instituto Moreira Salles (IMS) promove, a partir das 20h, o evento “Carolina é 100”, com exibição do documentário alemão “Favela — A vida na pobreza” (1971), seguida de um debate com o jornalista Audálio Dantas e a pesquisadora do departamento de Letras da Unicamp Marisa Lajolo.
 
 
O filme de 16 minutos é inédito no Brasil. Dirigido por Christa Gottman-Elter, ele foi localizado pelo IMS em uma cinemateca do interior da Alemanha e precisou ser restaurado e legendado. A especulação dos pesquisadores que o localizaram é que tenha havido uma articulação diplomática nos anos 1970 para impedir sua exibição, porque mostrava a pobreza do Canindé — justo em um período em que a ditadura militar procurava esconder os problemas sociais do país. Nele, é possível ver Carolina catando papel e contando de seu hábito, já automático, de olhar qualquer lata de lixo. Entre outros relatos, ela fala da dificuldade para alimentar os filhos e confessa sentir inveja ao ver uma vizinha catando feijão.

— Carolina tinha uma personalidade muito forte. A obra dela tem tanto interesse como documento quanto do ponto de vista da criação. Ela descrevia seu dia a dia com muita força, com interpretações inteligentes — afirma Audálio Dantas.
 
Foi ele quem descobriu Carolina, em 1958, quando trabalhava na “Folha da Noite”. O jornalista fazia uma reportagem sobre a vida na favela quando se surpreendeu com uma mulher ameaçando os vizinhos de incluí-los em um livro.
 
Ele se aproximou e pediu para ver o tal livro. Ao chegar no barraco de Carolina, pôde ver as anotações feitas pela mulher em cadernos — vários deles catados no lixo. Mais tarde, Audálio descreveu o cotidiano dela: “Se tem pão, come e dá aos filhos. Se não tem, elas choram, e ela chora também. O pranto é breve, porque ela sabe que ninguém ouve, não adianta nada”.
 
Carolina Maria de Jesus nasceu no interior de Minas Gerais. Como tantos moradores do campo, ela foi para São Paulo tentar a vida. Chegou a trabalhar como doméstica, mas acabou tirando uma parte de seu sustento do livro. Além da necessidade de expressar os fatos de sua vida, Carolina pensava em escrever um livro para vender. E deu certo. “Quarto de despejo” conquistou escritores como Clarice Lispector e Jorge Amado, entre outros. A obra chegou a ser adaptada para o teatro, com Ruth de Souza no papel da escritora.
 
— Carolina virou uma celebridade, meio uma Cinderela. Ela era consumida como uma fruta estranha pelas classes média e alta. Muita gente das altas rodas a convidava para jantar, a fim de exibi-la. E acho que ela não tinha consciência disso. Depois, ela foi abandonada — recorda Audálio Dantas.
 
Fracasso editorial no fim da vida

Dois anos depois de “Quarto de despejo”, Carolina publicaria “Casa de alvenaria — Diário de uma ex-favelada”, com relatos sobre sua vida depois da fama. Dela, ainda sairiam livros de poesia e um livro de provérbios — mas todos foram um fracasso editorial. E ela morreu, em 1977, pobre como no começo de sua carreira literária, num sítio que havia comprado com o dinheiro da primeira obra. Ela havia deixado de ser novidade.

O fato de circular nas altas rodas causava um quê de admiração, mas também de preconceito. Em março de 1961, por exemplo, a “Tribuna da Imprensa” ironizava os sapatos de bico fino e as roupas elegantes da escritora. “Fazendo o papel de ‘vedete’, a ex-humilde cronista da miséria urbana tratou com superioridade o próprio governador”, reclamava o jornal.

— Acho que nos anos 1960 a literatura deixou de ser uma coisa de gabinete e passou a ser de mídia. Mas a mídia vai por ondas. Acredito que Carolina jamais tenha aceitado cumprir o papel que queriam dar a ela — afirma Marisa Lajolo. — Hoje há uma aceitação maior na universidade de obras como a dela. É uma corrente que vai contra uma perspectiva mais monolítica do que é literatura.

Não à toa, hoje a antologia poética de Carolina Maria de Jesus é publicada pela editora da UFRJ. Seus dois primeiros livros, por sua vez, são publicados pela editora Ática. Dois dos 37 cadernos manuscritos da autora estão no IMS, e o resto, na Biblioteca Nacional.

Fonte: O Globo/Cultura
 
 
 
 

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