BLOG CARLOS RIBEIRO

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Rio de Janeiro: O som da marchinha que vem da Lapa

 
Concurso realizado pela Fundição Progresso reúne manifestações tradicionais do carnaval

 
 Pode preparar a fantasia porque o carnaval já começou no Rio de Janeiro. O Concurso Nacional de Marchinhas, organizado pela Fundição Progresso, iniciou a festa com música, confete e serpentina. No último domingo, 26/01, as ruas do centro receberam os grupos Céu na Terra e Rio Maracatu como parte da programação do projeto. Marchinhas, frevos, maracatus, cirandas e maxixes embalam o domingo de folia antecipada.

A nona edição do Concurso de Marchinhas, patrocinado pela Secretaria do Estado de Cultura e Petrobras, agitou a Lapa mais uma vez. A tradição carnavalesca brasileira se concentrou ao lado dos arcos da Lapa. O bloco Céu na Terra iniciou a festa com um cortejo romântico e seguiu com repertório composto por Lamartine Babo, Pixinguinha, Jards Macalé, Braguinha, entre outros. Ao cair do sol, o Rio Maracatu, desde 1997 no carnaval carioca, transportou a tradição pernambucana e pintou a noite com as saias rodadas de dançarinas típicas.

“Nós fazemos um intercâmbio com vários mestres do Maracatu de Baque Virado. É uma homenagem às nações do ritmo”, explica Leo Araripe, um dos diretores do Rio Maracatu. A apresentação conta com os alunos das oficinas de percursão e dança  dadas pelo grupo toda segunda e terça-feira do mês na Fundição Progresso. “Nós estimulamos blocos do Rio Antigo, com trabalhos mais profundos de tradição. Até gostamos de achar que temos um dedo na revitalização do carnaval de rua”, conta a produtora do concurso Vanessa Damasco que considera os blocos Rio Maracatu, Céu na Terra e Cordão do Boitatá, movimentos de pesquisa cultural. O Baile da Final acontece no dia 16/02.

Na rua e no mp3

Os shows fazem parte de um evento iniciado no dia 16/01 com o lançamento do CD das músicas finalistas do concurso. Dentre elas, Colorindo a Praça, do bicampeão Eduardo Krieger, com vitórias no ano de 2009, com Bendita Baderna, e, em 2011, com Nossa Fantasia. Este ano a inspiração surgiu dos recorrentes amores de carnaval.  O músico define a composição como uma marchinha romântica. “São paixões platônicas que acontecem neste período e duram, às vezes, só o tempo da festa.  É poético ter pessoas que se apaixonam apenas de olhar umas para as outras em uma praça, um baile.”

Outras canções recheiam o disco, como Menina Black Bloc, de Oswaldo Pereira e Cadê a Viga?, de Cassio e Rita Tucunduva. Ambas tratam com bom humor acontecimentos marcantes no último ano. A primeira sobre as manifestações e a segunda sobre o sumiço da viga durante as obras do Elevado da Perimental. A produtora do Concurso, Vanessa Damasco, chama atenção para os temas. “Os assuntos políticos e sociais sempre estiveram presentes durante a história, nosso trabalho é pincelar e encontrar esta combinação entre letra e melodia”, conta a produtora que cita Cabeleira do Zezé como exemplo de marchinha social sobre questões da homossexualidade.

Também em tom de protesto, Aplicando na Poupança, de Rafael Junior, trata da crise financeira mundial; Sauna Gay, de Hardy Guedes, apresenta um rapaz chamado Feliciano; e Eu Quero É Ficar Off, de Dudi Baratz, Raphael Gemal, Luciana Coló e Ricardo Szpilman, sobre o desejo de permanecer alienado frente aos protestos de 2013. Irreverente e na base do gracejo, É Hoje, do veterano Pedro Holanda e Marcha da Maconha, de Henrique Cazes.  

Para completar a seleção de finalistas, Baba do Quiabo, de Sérgio Mouzinho, representa o lado mais surrealista. “Sonhei que era um quiabo / Sofri, fui maltratado / Fugi apavorado / Correram atrás de mim/ Quebraram a ponta do meu rabo”, com este começo, a letra  arranca risos inesperados do público há vinte anos. Isto porque o autor a compôs na década de 1990 depois que seu pai acordou com esta ideia na cabeça. “Eu cantava em festa de família, entre amigos e era sucesso garantido. Ano passado, tomei coragem, registrei e inscrevi no concurso”, conta Sérgio que é de família músicos amadores e trabalha como corretor de imóveis.

Não importa a profissão, qualquer um pode se inscrever. Em nove anos, a orgaização recebeu em média 8 mil marchinhas de todos os estados do país. O júri precisa ser cuidadoso na hora de escolher o vencedor. Vanessa Damasco conta que o processo de seleção acaba eliminando muita música boa. O critério classificatório combina letra e melodia o que, segundo a produtora, faz a canção subir ou descer.

Hora da homenagem

Todo ano uma personalidade da história do carnaval é homenageado. Neste, a cantora Marlene, a rainha do rádio, é reverenciada. Ela ainda é viva e aos 89 anos, é representada pelas canções Marlene, Meu Bem, Marcha do Sapinho e Eva na voz em coro da Banda Fundição. A convidada Áurea Martins, que conviveu com Marlene nos tempos de rádio, canta Bloco da Solidão.

A rainha carrega mais de quatro mil canções interpretadas durante a carreira, além de partipações no cinema, no teatro e em revistas. A personalidade forte inspirou as mulheres da década de 1950 e encantou os homens.

Marlene está estampada em todo o material gráfico do evento e na história das marchinhas. “Todo carioca que se preze tem uma relação muito próxima com este gênero musical. Eu acho que um concurso que tem a marchinha como elemento principal naturalmente já entra no campo afetivo do carioca desde berço”, acredita Krieger.


Fonte e Colaboração:  Yzadora Monteiro

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