BLOG CARLOS RIBEIRO

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Discos, filmes, musicais e publicações mergulham no brega

Gênero, redescoberto pelo livro 'Eu não sou cachorro, não', hoje é alçado à categoria de cultura
Odair José, ícone do brega, lançou disco neste ano

 

 
Alguma coisa aconteceu no brega coração brasileiro na última década. Suas dores de amores não sangram mais que antes, nem suas cores são mais extravagantes — mas agora há mais gente, e gente de variadas classes sociais, prestando atenção nisso. Recentemente lançados ou em produção, filmes, musicais, discos e livros apontam os olhos para o universo cantado por artistas como Odair José, Paulo Sérgio, Nelson Ned e Waldick Soriano. E o marco inconteste desse movimento é o lançamento, há dez anos, de “Eu não sou cachorro, não — Música popular cafona e ditadura militar”, do historiador Paulo Cesar de Araújo (o autor de “Roberto Carlos em detalhes”, a biografia proibida do Rei).

A importância do estudo vai além de sua tese original — de que compositores cafonas teriam sofrido com a censura tanto quanto artistas da chamada MPB. Afinal, ele foi responsável por trazer à tona um cancioneiro esquecido — apesar de sua popularidade, com histórias de homens traídos, tabus rompidos e amores rasgados. Do documentário “Vou rifar meu coração”, de Ana Rieper (que rodou festivais e estreou em circuito neste ano), ao livro “Assim você me mata” (contos com temática brega que serão lançados em dezembro), passando pelo musical “Eu não sou cachorro, não” (em cartaz em Belo Horizonte) e pelo filme “Eu vou tirar você desse lugar”, projeto da diretora Helena Tassara, a pesquisa de Paulo Cesar serve de base.

— Inicialmente, “Vou rifar meu coração” era um filme sobre um tipo de canção popular que conheci quando morei em Aracaju — lembra Ana Rieper. — Estava com a primeira versão escrita quando soube do livro. Foi o início da virada do projeto. Ele me apresentou a esses personagens chamados cafonas, os cantores populares românticos dos anos 1970, uma música tão forte e importante. O livro é uma bíblia pra qualquer um que trabalhe com música popular romântica. Escrevi um artigo para o livro “Vou fazer você gostar de mim”, com textos acadêmicos sobre o brega (lançado em 2011). Todos citam Paulo Cesar, que fez um trabalho pioneiro.

Fernando Bustamante, diretor do musical “Eu não sou cachorro, não”, confirma:

— Foi pelo livro que conhecemos esse vasto repertório. Só que, em vez de o relacionarmos com um contexto politico e social, como faz Paulo Cesar, usamos o repertório para pontuar uma história fictícia, do autor Leo Mendonça.

Paulo Cesar reconhece a importância do seu trabalho, mas defende que a revalorização do brega faz parte de um contexto mais amplo de democratização social, que, afirma, inclui mais atenção da sociedade para questões como racismo e homofobia e mesmo a eleição de Lula, exatamente em 2002:

— É um processo político, cultural e social em curso no Brasil. Meu livro entrou aí, para compreender melhor essa música, que estava excluída do debate. Quando escrevi “Eu não sou cachorro, não”, não havia um livro didático que fizesse referência aos bregas. Agora, há livros que citam Waldick e Odair ao lado de Caetano e Milton. Há o musical, há várias teses, tivemos os documentários de Ana Rieper e de Patricia Pillar (“Waldick Soriano, sempre no meu coração”), a Helena Tassara adquiriu os direitos do livro e prepara seu filme, a sonoridade brega está entrando nos discos da MPB. Não mais como ironia, como a Banda Vexame fazia nos anos 1990. E essa nova geração paraense, de Gaby Amarantos, tem reforçado isso.

O autor prepara sua volta ao tema, num livro ainda sem título (previsto para 2013) sobre os bastidores de “Eu não sou...” e “Roberto Carlos...”.
— São minhas memórias sobre os encontros que tive para fazer os livros, em que entrevistei de Waldick Soriano a João Gilberto. Narro também meus desencontros com Roberto Carlos — conta Paulo Cesar, processado pelo cantor, que não deu entrevista para o livro.

Nos relatos, o historiador irá, indiretamente, iluminar o próprio processo de construção de memória — o que ajuda a entender tanto o esquecimento dos cafonas quanto seu ressurgimento.

— “Em qualquer lugar”, de Odair José, foi proibida em 1973. Quando fui entrevistá-lo, ele não se lembrava da música. A construção da memória é mais que individual, é social — diz.

Com organização de Claudio Brites e lançamento dia 2 de dezembro, na Balada Literária, em São Paulo, “Assim você me mata” (Terracota) é um reflexo — talvez o mais claramente marcado no campo da literatura — dessa mudança de percepção sobre o brega. Escritores como André de Leones, Xico Sá, João Anzanello Carrascoza e Marcelino Freire apresentam contos repletos de referências musicais (de Marcio Greyck a Reginaldo Rossi, de Cauby Peixoto a Raimundo Soldado), incursões pelo kitsch de jardins com anões, cenários como puteiros e botecos, personagens como a diva, o cantor decadente, o cafajeste e o travesti e martírios de amor.

— Tradicionalmente, é um tema tratado de forma pejorativa, mas de um tempo para cá ser brega está passando a ser cult. Botamos tudo isso na mesa no livro.
 
 — explica Brites, que identifica um fator mercadológico na valorização do gênero. — Percebeu-se ali uma força comercial. E a empregada que era coadjuvante da novela se torna protagonista. Há uma apropriação desse repertório por parte dos artistas, mas é uma questão de mercado também.
Odair José, ícone da geração estudada por Paulo Cesar, lançou um disco neste ano com produção de Zeca Baleiro e participação de artistas como Paulo Miklos. O próprio Zeca promove o repertório brega em seus discos e em bailes — Nando Reis também faz festas-shows semelhantes.

— Mas não vejo um herdeiro legítimo. Essa música é muito característica de uma época e tem a ver com um contexto social e político, entre os anos 1960 e 80. O que vejo são artistas novos tirando onda de “amantes do brega”, querendo pegar carona nesse renascimento, já que agora ficou bacana. Mas não acho que seja amor sincero, talvez porque lhes falte identidade afetiva com esse universo — diz Baleiro. — Muito do que aconteceu depois tem a ver com o êxito do livro de Paulo Cesar.

Comparação com Sarte e Camus

Foi Baleiro quem apresentou o trabalho a Helena Tassara, que agora parte da ótica do livro para fazer um filme com caráter político sobre os cafonas.

— Falarei da censura, mas também da patrulha ideológica sofrida por esses artistas — explica ela. — O filme terá as canções como espinha dorsal e será divido em temas que atravessam questões sociais e amorosas, drogas, tristeza... Fizemos shows ano passado com direção de Zeca Baleiro e atrações como Odair José, Benito de Paula, Luiz Ayrão e Agnaldo Timóteo (que teve parte de sua discografia relançada neste ano pela Discobertas). Gravamos tudo, e o material estará no filme.

Para Ana Rieper, a aceitação do brega passa pelo movimento do tempo:

— Há uma certa visão sobre a cultura popular que diz que ela tem valor quando ligada à tradição. E hoje os cafonas carregam isso, o que facilita que sejam assimilados pela elite cultural.

Vladimir Cunha, diretor do filme “Brega S/A”, que investiga o tecnobrega paraense, lembra o livro de Paulo Cesar e outras causas para o renascimento.

— A volta do vinil e a chegada do MP3 ajudaram a trazer as canções de volta. Já não fazem sentido conflitos estéticos entre grupos. Tecnicamente, não há muita diferença entre Odair José, Sartre e Camus. Todos falam das mesmas coisas, a brevidade da vida, a incapacidade de ser feliz plenamente.


 

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